Alguns Aspectos da História & Doutrina dos Náthas
Alguns Aspectos da História & Doutrina dos Náthas
Por: Mahopadhya Gopináth Kaviraj
Tradução livre por: Regina Balieiro Devescovi
Revisão e notas por: Anuttara Kápilanáth Kuláchárya
[Este texto foi escrito por Gopináth Kaviraj e publicado na Princess of Wales Sarasvati Bhavan Series, Vol. VI, 1927. Aqui, Kaviraj apresenta sua visão sobre a [corrente] Náth Sampradáya, incluindo informações sobre alquimia bem como sobre a kundaliní e o corpo físico imperecível. ]
. INTRODUÇÃO .
UMA história detalhada e sistemática da cultura indiana permanece ainda por ser escrita. Mas não há duvida de que antes que isso possa acontecer com sucesso é necessário empreender um trabalho denso e continuado em vários campos de estudo. A história cultural de um povo não é menos complexa do que sua história política, tornando-se tanto mais intrincada quanto mais se estenda ao longo de séculos e séculos de interações entre diversas correntes e contra correntes de forças.
O estudo das correntes nátha[1] e siddha é uma preliminar do estudo do pensamento indiano medieval, notando-se que apenas o tema aqui abordado engloba vários diferentes aspectos. Este texto sumariza alguns dos principais pontos da matéria e pretende ser apenas um conjunto sugestivo de idéias. Espera-se que, a partir desta iniciativa, a temática aqui abordada se torne objeto de uma investigação sistemática capaz de desvendar os vários pontos obscuros da história e doutrina dos náthas.
Mahamahopadhyaya Haraprasad Sastri atraiu a atenção dos estudiosos da literatura dos siddhácháryas budistas. É um fato que vários dos ácháryas eram idênticos aos náthas, os quais eram conhecidos como siddhas. Mas sua exata posição não é conhecida. A história da literatura tântrica, especialmente aquela da ordem Tripura, está plena de nomes dos náthas. E vários desses nomes não são nomes próprios ou históricos, mas apenas nomes de certos princípios abstratos. Alguns, contudo, são nomes históricos. Após a iniciação, o discípulo, invariavelmente, recebe um nome que termina com a partícula nátha. Mas não temos nenhuma preocupação aqui com esses ‘náthas’.
Um estudo sistemático e regular dos ensinamentos dos hathayogís – os próprios náthas tais como Matsyendranáth, Gorakshanáth, etc.; dos budistas vajrayana e sahajayana; dos tântricos da ordem tripura bem como do culto viráchára; dos seguidores de Dattatreya; dos shivaístas; dos últimos sahajiyás; e dos neo-vaishnavas revelará vários aspectos em comum. Na verdade, a relação entre o budismo mahayana e a cultura tântrica é bastante importante e merece um exame bastante cuidadoso. Seria de grande interesse, aliás, descobrir como o súnyavada do mahayana incorporou-se gradualmente ao Hatha Yoga, ao Tantra, etc., e como, no final das contas, este súnya foi interpretado nas escolas budistas mais recentes.
Com efeito, todas as escolas de pensamento favoráveis à posição filosófica dos alquimistas e à ciência da alquimia, tal como usualmente cultivadas na Índia Antiga, teriam que ser estudadas. O rasavada dos neo-vaishnavas, por exemplo, inspirou-se muito no desenvolvimento da ciência mística associada aos nomes dos siddhas.
O escopo deste texto não é contudo, tão amplo. Trata-se, aqui, de um pequeno registro da origem da Ordem e da literatura associada à doutrina dos náthas.
. ORIGEM DA ORDEM .
Como usual na cultura indiana, a corrente nátha reivindica uma origem divina. Brahmananda,[2] em seu comentário, denominado Jyotsna, sobre o Hatha Yoga Pradípiká I: 5, afirma que Ádi-náth, ou Shiva, foi o primeiro de todos os náthas e que, de acordo com uma tradição preservada na literatura nátha, a Ordem foi fundada pelo próprio Shiva:
ádináthah shivah sarveshám náthánám prathamo náthah
tato náthasampradáyah pravritta iti náthasampradáyino vadanti
Do trecho acima pode-se deduzir que a Ordem era conhecida pelo nome de Náthapanthí.[3] Os estudiosos, aliás, também usam freqüentemente esse termo. Mas na literatura, esta é conhecida como siddhamarga, avadhutamarga, etc. E como os professores desta escola enfatizam a prática do [Hatha] Yoga como um recurso na direção da realização da perfeição, a ordem [também] passou a ser designada de yogamárga.
A seita Kápálika[4] é em alguns aspectos, assemelhada ao [culto] nátha, mas, no geral, transita num caminho um tanto distinto. Embora sua origem seja atribuída a Ádi-nátha, seus principais ensinos e práticas têm um caráter próprio e particular.
O Tantrasábara fornece uma lista de vinte e quatro kápálikas – doze mestres e doze discípulos. É interessante notar que alguns desses nomes, sobretudo os dos discípulos, são os nomes dos mais conhecidos náthas ou siddhas. Os nomes dos doze mestres são: Ádi-náth; Anadináth; Kalanáth; Atikalanáth; Karalanáth; Vikaralanáth; Mahakalanáth; Kala Bhairavanáth; Batukanáth; Bhutanáth; Viranáth e Srikanthanáth. Os nomes de seus doze discípulos aparecem nesta ordem: Nagarjuna; Jada Bharata; Harischandra; Satyanáth; Bhimanáth; Gorakshanáth; Charpatanáth; Avadyanáth; Vairagyanáth; Kanthadhari; Jalandhar e Malayarjuna.
Apesar de a origem espiritual da Ordem nátha vir, supostamente, de uma fonte divina, sua fundação histórica é relacionada a um certo Matsyendranáth. A história de vida deste grande homem sempre esteve tão intimamente entrelaçada com as lendas que é muito difícil chegar a uma conclusão adequada. Conta-se que, em tempos longínquos, Matsyendra se alojou na cabeça de um peixe que, por acaso, ouvira as instruções secretas de Ádi-náth ou Shiva e que, por isso, se tornara fixado no corpo e na mente:
tírasamípanírasthah kashchana matsyah tam yogopadesham shrutvqá ekágrachitto nishchalakáyo avatasthe
Quando o grande Senhor percebeu o que havia acontecido, Ele descobriu o verdadeiro significado da sobriedade. Com compaixão, aspergiu água sobre o peixe e o transformou em um corpo humano de tipo celestial, desde então conhecido como o famoso Siddha Matsyendranáth. H.P. Shastri acredita que o verdadeiro nome de Matsyendra seja Macchaghna, que provavelmente significa pescador. Seja como for, não há dúvida de que Matsyendra era um yogí bastante avançado. Todavia, relata-se que, a despeito de seus grandes poderes, ele sucumbiu à tentação da paixão erótica e que, somente com muita dificuldade, seu mais favorito discípulo – Goraksha – conseguiu resgatá-lo.
Matsyendra teve vários discípulos. Ao lado de Goraksha, que se tornou o mais renomado de todos, havia Chaurangi, Goracholi e outros. Há lendas associadas a cada um dos siddhas. E quase todos tem uma canção singular, várias cantadas na Idade Média e atualmente recitadas no tom prosaico dos instrumentos tocados pelos músicos de rua.
Na literatura dos náthas freqüentemente se encontra o nome Minanáth. É difícil afirmar se esse era um sinônimo de Matsyendra. Vários estudiosos acreditam que os dois nomes se referem à mesma pessoa. Mas na lista dos náthas, fornecida por Brahmananda, encontramos o nome de Mina mencionado separadamente do de Matsyendra.[5] Shastri refere-se a eles como se fossem duas pessoas e afirma que ambos eram nativos de Chandradvipa.
A palavra chaurangi significa uma pessoa privada de mãos e pernas. Conta-se que enquanto Matsyendra – após ter se tornado um siddha pela graça de Ádi-náth –vagava a vontade pelo mundo, ele topou com Chaurangi em uma floresta e sentiu piedade dele. O corpo de Chaurangi, que era somente um tronco, tornou-se provido misteriosamente de mãos e pernas após este ter caído aos pés do grande siddha implorando sua Graça. Ele tornou-se um siddha, conhecido como Chaurangi Náth. Ghoracholi fora um outro discípulo de Matsyendra.
Mas o maior dos discípulos deste mestre – na verdade, uma das maiores almas já produzidas na Índia – foi certamente Gorakshanáth. Ele foi um grande siddha, foi o pai do Hatha Yoga em sua forma corrente e o grande apóstolo do misticismo yogí na Idade Média. Em Panchamatrayogí, a ele atribuído, relata-se que durante do período de seu discipulado, ele passou doze longos anos em vigilância em um terreno de cremação. H. P. Shastri diz, baseando-se nas evidências de Taranáth, que Goraksha foi originalmente um budista e que tornou-se um nátha somente nos últimos anos. Como um budista, era conhecido pelo nome de Ananga Vajra, de acordo com Taranáth, ou pelo nome de Ramana Vajra, de acordo com Madame Shastri. Todas essas afirmações podem ser factuais. Mas em Kayabodhi, também atribuído ao próprio Gorakshanáth, há um comentário que parece esclarecer sua origem como um abatedor de animais (pashvárambhaka). Se a palavra aranbha significa matança sacrificial, Goraksha não pode ser apresentado como tendo sido um budista antes de sua conversão a [tradição dos] náthas.
A era de Goraksha ou de seu mestre Matsyendra não é inteiramente conhecida. A tradição que o relaciona a Kabir (1500 d.C.) e com Madhusudana Sarasvati (1700 d.C.) não tem provavelmente nenhum valor histórico. Mas Jñánanáth, aliás Jñánadeva, que é usualmente localizado no século XIII d.C., afirma em seu comentário sobre a Bhagavad Gítá, que Gorakshanáth aparece como seu terceiro predecessor – portanto: Adi-Náth, Matsyendranáth, Gorakshanáth, Gahinináth, Nivrttináth e Jñánanáth. Esse arranjo localizaria Goraksha no início do século XII d.C. Essa data está de acordo com a tradição que torna Goraksha e Dharmanáth contemporâneos e discípulos do mesmo Mestre. Com efeito, Dharmanáth é geralmente localizado no século XII d.C. Todavia, há pontos de vista de acordo com os quais Goraksha viveu em 500, 700 ou 1000 d.C. Os discípulos de Goraksha foram numerosos, alguns dos quais tendo conquistado a excelência. Fontes seguras informam que Balanáth, Halika Pava, Mali Pava, etc. foram seus discípulos. Mayanamati, rainha mãe de Rája Gopichand, parece também ter sido iniciada por Goraksha.
Bala Náth, acima citado, pode ser Siddha Balapada do qual encontramos uma descrição na literatura tibetana e o qual é identificado com o grande Jalándhara Náth. Foi provavelmente um shudra tornando-se posteriormente um budista e convertendo-se finalmente ao nathismo. Ele foi um poderoso santo. Em Bengala era popularmente conhecido como Hadipa. A magnitude de sua santidade foi universalmente reconhecida a ponto de alguns atribuírem a ele uma posição mais elevada do que a do próprio Goraksha.[6] Podemos colher algumas descrições deste santo no Niranjana Purána. Afirma-se que nas cercanias de Kerala ele concedeu graça a um shabala, o qual então convertido, escreveu alguns versos em memória de seu Mestre. Suas realizações foram muitas e variadas. Entre as pessoas às quais ele concedeu Graça há várias e ilustres figuras. Rája Gopi Chand de Bengala, Rája Bhartrihari de Ujjein e Charpata,[7] que é descrito como o tio maternal de Gopi Chand, foram seus discípulos. Os nomes de alguns de seus outros discípulos são Goga,[8] Chatikanáth, Rama Sinha,[9] Bhima,[10] o comerciante Agila, o comerciante Sandhara (em Palanpur), etc. Diz-se que ele praticou penitências em uma montanha, chamada Rakta, na cidade (Adipuri) de Dandavati. Vários de seus feitos yoguís foram relatados. Por exemplo: ele fez surgir pérolas do nada, no campo de batalha de Yugandhara; ele transformou uma pessoa, de nome Kanha, um surdo-mudo de nascença (janma múka), em um eloqüente poeta; ele exibiu uma nítida visão de totalidade do universo ao rei Renuka, no monte Kanchana, e deu a ele uma maravilhosa espada; ele concedeu benção a um cavalheiro da família Raghu que permitiu-lhe subjugar as forças superiores do Imperador de uma mão só, e deu a Charana um adorável filho de nome Dala. Há várias outras histórias assim. Relata-se que uma vez Jalándhara atracou seu barco a vela no cais de uma cidade (denominada Sesali) e o iluminou (ágnidháni), quando um príncipe veio a seu encontro. Jalandhára presenteou-o com uma excelente espada, chamada Rama Chandra, com a qual o príncipe, em batalha, matou vários Yavanas –inclusive aqueles da classe de Joya, um dos que mataram seu pai. Por isso alguns Bhatis – um clã dos Yadavas – o desafiaram para uma sangrenta batalha durante a qual Jalándhara apareceu diante do príncipe após ter sido por ele invocado. A espada assumiu então, um tamanho tão descomunal que os oponentes bateram em retirada. Após ter vencido a batalha, o príncipe desapareceu e tornou-se imortal.
Gopichand, o filho de Rája Triloka Chandra[11] de Bengala, tornou-se o discípulo de Jalándhara Náth. Mais tarde, partiu do reino de seu mestre por solicitação de sua ‘sagrada’ mãe Mayanamati. O Mahá Santavakya contém uma pequena descrição de sua renúncia. Nota-se aqui, o quão inusitado e qualificado foi o discurso com o qual a rainha mãe exortou seu relutante filho contra as vaidades do mundo e suas posses materiais e pela suprema necessidade em buscar refúgio com um mestre espiritual e em prol da iluminação. Raramente na história humana uma mãe tomou a iniciativa de enviar seu próprio filho ao caminho que conduz a Sabedoria Suprema – caminho repleto de grandes perigos e da possibilidade de incontáveis sofrimentos. A hitória da renúncia de Gopichand tornou-se clássica. E quase todo vernáculo do norte da Índia tem suas próprias versões dessa história. Gopichand, como um siddha, ficou conhecido como Srngari Páva. No Siddhanta Vakya encontra-se um interessante diálogo entre ele e Jalándhara. Ele propôs a Jalándhara uma série de questões, as quais foram prontamente respondidas. Tais questões foram redigidas:
gopícandah kathayati
bho swámin prcchámi kathaya antaryámin
vasatau stháyate tadá kándarpo vyápnute
vane sthíyate tadá ksut santápayati
ásane sthíyate tadá sprshati máyá
pathi gamyate tadá chidyate rogah
kathayam katham sádhyate yogah
Jalándhara respondeu:
shrotavyo’ vadhuta tattvasya vicárah
yah esa sakálashiromanih Sarah
samyata áháre kándaroi na vyápnute
báhyárambhe ksunna santápayati
siddha ásane nahisprshati máyá
báda pramánema chidyate káyah
jihváyáh sukháya na kattavyo bhogah
manah pavanau ca grtítvá sádhaníyo yogah
Ele acrescentou mais:
alpamashnáti sa tu kalpayati jalpati
bahu bhunakti sa tu rogí
dvayorapi paksaye áryah sandhim vicárayati
sa tu ko’pi viralo yogí ,
e a última parelha de versos contem a quintessência dos ensinamentos dos náthas.
A história de Bhartrhari, outro príncipe de sangue real, é igualmente interessante. Ele também renunciou as alegrias e luxúrias do palácio e sob a orientação de Jalándhara alcançou a perfeição no Yoga. Na literatura dos siddhas seu nome aparece como Vichara Náth.
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